"Drive my car" - o mistério teatral

O cinema é capaz de captar o melhor que tem a essência do ser humano. É nisso que sou capaz de admitir e que tenho vontade de concordar. Em Drive my car somos confrontados com uma história peculiar, mas que tanto nos convence.
O actor e encenador Yusuke Kafuku é convidado a encenar "O Tio Vânia" de Tchekhov num festival de teatro em Hiroshima. No carro em que se desloca para a viagem é conduzido pela discreta jovem Misaki e nele somos encaminhados para uma viagem sem destino.
Kafuku é uma personagem subtil, misteriosa e com muito talento. É na sua missão de encenar uma peça de teatro que o filme ganha vida e se torna numa longa jornada. Nisso não há dúvidas do que se pede.
Drive my car é um filme capaz de nos prometer muito e dar em troca tanto quanto prometeu. É um filme longo, mas que a sente a sua brevidade emocional que nos provoca. É uma história capaz de nos fazer apaixonar sobre muito e tão pouco.
O realizador do filme Ryûsuke Hamaguchi tem de ser congratulado pelo fantástico papel que fez neste filme. Utiliza a imagem como uma relíquia imponente e letal, capaz de nos fazer apaixonar sobre a vida e o teatro.
Com paisagens de cortar a respiração e uma fotografia lindíssima sobre o mais belo que há no Japão, Drive my Car seduz-nos pela sua pertinência ao nível dos diálogos, quer sejam das peças de teatro quer sejam entre as personagens. Para não falar da misticidade e pelo mistério que a história do filme acarreta.
Vencedor do Óscar de melhor filme internacional em 2022 Drive my Car é uma das grandes celebrações do cinema asiático dos últimos anos. Um filme a não perder e que certamente provocará muitas emoções.